Como começar a atender em consultório: um roteiro para psicólogos
Do primeiro horário na sala ao recibo do primeiro paciente: o que organizar antes de abrir a agenda, com calma e sem assumir custos que a clínica ainda não sustenta.
Por Ana Toledo, psicóloga e psicanalista • CRP 06/189777
• 6 min de leitura
Terminar a graduação, ou concluir uma etapa da formação, e decidir atender em consultório costuma vir acompanhado de muitas perguntas ao mesmo tempo: onde, quanto investir, como chegar aos primeiros pacientes, o que a lei e o conselho exigem. Não é preciso resolver tudo de uma vez. O que segue é um roteiro, na ordem em que as questões costumam aparecer na prática.
Comece pequeno
A tentação inicial é montar um consultório completo: alugar uma sala inteira, mobiliar, contratar internet, assumir condomínio. Só que, no começo, a agenda ainda não existe. Um aluguel mensal pesa todos os meses, com ou sem pacientes.
Um caminho mais sustentável é começar com um ou poucos horários fixos semanais numa sala sublocada. Você paga pelo tempo que usa, tem um endereço para oferecer aos pacientes e testa, na prática, se aquele local funciona para você. À medida que a agenda se preenche, amplia os horários e, se fizer sentido, passa para um turno ou uma diária. O espaço acompanha a clínica, e não o contrário.
Se estiver nessa fase, escrevi um texto específico sobre o que observar antes de sublocar uma sala: sigilo, setting, intervalo entre profissionais e contrato.
Escolha o local pensando no paciente e na sua rede
Dois critérios ajudam mais do que a decoração. O primeiro é o acesso: metrô ou trem a poucos minutos a pé, ônibus por perto, prédio aberto nos horários em que você pretende atender. Um trajeto difícil acaba aparecendo em atrasos e faltas.
O segundo é a proximidade com a rede que você já tem. No início, os encaminhamentos costumam vir de colegas de formação, professores, supervisores, profissionais de saúde com quem você já conversa. Atender numa região acessível para essas pessoas e para quem elas indicam facilita que o primeiro contato se transforme em uma primeira sessão.
Defina o enquadre antes do primeiro paciente
O contrato terapêutico, combinado de forma clara desde o início, protege o tratamento e evita conversas difíceis depois. Vale ter decidido, antes de abrir a agenda:
- Horário. Dia e hora fixos, duração da sessão e frequência.
- Honorários. Valor, forma e data de pagamento, e como serão os reajustes.
- Faltas e cancelamentos. Com quanto tempo de antecedência o paciente avisa e o que acontece com a sessão não comparecida.
- Férias e interrupções. Como ficam as suas férias, as do paciente e os feriados.
Não existe um modelo único. O importante é que você saiba sustentar o que combinou e que o paciente tenha entendido os termos. Algumas colegas preferem registrar o combinado por escrito; outras, apenas conversá-lo na primeira sessão. As duas formas podem funcionar, desde que haja clareza.
Organize o registro documental
A Resolução CFP nº 1/2009 obriga o registro documental dos atendimentos e a guarda desse material por, no mínimo, cinco anos, em local que preserve o sigilo. Decida desde o primeiro dia como vai fazer isso: um arquivo físico com chave, de uso exclusivo, ou um prontuário eletrônico com acesso protegido. Numa sala compartilhada, esse cuidado é ainda mais importante, porque outros profissionais circulam pelo mesmo espaço.
Divulgue com ética
Os primeiros pacientes raramente chegam por um anúncio, mas é natural querer ter um perfil profissional, um site ou um cadastro em plataformas. O Código de Ética Profissional do Psicólogo estabelece limites claros para a divulgação. Não é permitido:
- prometer resultados ou prazos para o tratamento;
- usar depoimentos de pacientes;
- usar o preço como forma de propaganda.
Em toda divulgação, informe seu nome e o número do seu registro no CRP. Descrever sua formação, a abordagem, o público que você atende e o endereço é suficiente e ajuda o paciente a saber se faz sentido procurar você.
Recibos e parte fiscal
Quem atende como psicóloga autônoma, pessoa física, tem obrigações diferentes das de uma clínica constituída como pessoa jurídica, tanto na emissão de recibos ou notas quanto na declaração de rendimentos. Os pacientes, por sua vez, costumam precisar do recibo para o imposto de renda ou para reembolso do plano de saúde.
A Receita Federal passou a exigir a emissão de recibos pelo aplicativo Receita Saúde para profissionais pessoa física — confirme as regras vigentes com um contador. Uma conversa com um contador que conheça a área da saúde, logo no início, costuma poupar dor de cabeça: ele ajuda a entender se, e quando, vale a pena abrir um CNPJ, e como organizar o recolhimento dos impostos.
Supervisão e análise pessoal
Atender sozinha num consultório é diferente de atender numa instituição, onde há colegas, reuniões de equipe e alguém a quem recorrer no corredor. Na clínica particular, a supervisão e a análise pessoal passam a ser o que sustenta o trabalho. A supervisão ajuda a pensar os casos e a conduzir as situações que o curso não antecipou. A análise pessoal permite que você perceba o que é seu e o que é do paciente. Vale incluir as duas no planejamento do tempo e do orçamento desde o começo, e não como algo para quando a agenda estiver cheia.
Monte uma rede de encaminhamento
Cedo ou tarde, você vai receber alguém que precisa de avaliação psiquiátrica, de um atendimento que não é a sua especialidade ou de um horário que você não tem. Ter alguns nomes de confiança (psiquiatras, colegas que atendem outros públicos, profissionais de outras abordagens) permite encaminhar com cuidado, em vez de apenas dispensar. E a rede funciona nos dois sentidos: colegas que conhecem o seu trabalho também passam a indicar você.
A clínica cresce melhor quando o espaço, o enquadre e a sustentação do trabalho vêm antes da agenda cheia.
Na Atenta, é possível começar com um único horário fixo semanal, no plano Bronze, e ampliar para os planos Prata ou Ouro conforme a agenda cresce. A sala fica no Brooklin, na Zona Sul de São Paulo, a 5 minutos a pé do Metrô Brooklin, e funciona de segunda a sábado, das 8h às 22h. Não há recepção nem tratamento acústico, o que é bom saber antes da visita. A conversa é direta com uma colega, psicóloga que atende na mesma sala. Veja os planos de sublocação ou a página completa da sala.
Dúvidas comuns de quem está começando
Preciso ter uma sala só minha para começar a atender?
Não necessariamente. Muitos psicólogos começam com um ou poucos horários fixos em uma sala sublocada e só assumem custos fixos maiores quando a agenda já está mais estável. Assim, o espaço cresce junto com a clínica, e não antes dela.
Por quanto tempo devo guardar os registros dos atendimentos?
A Resolução CFP nº 1/2009 determina a guarda do registro documental por, no mínimo, cinco anos, em local que preserve o sigilo. Vale conferir no site do CFP se há normas complementares ou atualizações.
O que posso colocar na divulgação do meu consultório?
Nome, número do CRP, abordagem, público atendido, endereço e formas de contato. O Código de Ética Profissional do Psicólogo não permite prometer resultados, usar depoimentos de pacientes nem usar o preço como forma de propaganda.
Como emitir recibos atendendo como pessoa física?
As obrigações de quem atende como pessoa física são diferentes das de uma clínica com CNPJ. A Receita Federal passou a exigir a emissão de recibos pelo aplicativo Receita Saúde para profissionais pessoa física, mas confirme as regras vigentes com um contador antes de começar.
Este texto tem caráter informativo e não substitui a consulta às normas vigentes. Antes de começar a atender, confirme as regras aplicáveis à sua prática com o CRP da sua região e com o CFP e, para as questões fiscais, com um contador.